18 de outubro de 2017

Congresso Nacional funciona como uma Pirâmide Financeira!

"A democracia sobrevive quando a
inteligência do sistema compensa
a mediocridade dos atores"
Daniel Inneraty
 A definição básica para o esquema conhecido nos meios policiais como Pirâmide financeira é o seguinte: É um modelo comercial previsivelmente não sustentável que depende basicamente do recrutamento progressivo de outras pessoas para o esquema, a níveis insustentáveis.
Eles existem há pelo menos um século e atualmente podem estar mascarados com o nome de marketing de rede ou multinível. O marketing de rede opera dentro da legalidade e se confunde muito com a pirâmide.
Segundo o Ministério da Fazenda, o Brasil proíbe qualquer tipo de negócios em pirâmide. A lei 1.521 de 1951 aponta que é crime contra a economia popular, com possível punição de seis meses a dois anos de detenção, "obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos (“bola de neve", "cadeias", "pichardismo" e quaisquer outros equivalentes)".
Ao analisar friamente o funcionamento do nosso Congresso Nacional (Câmara Federal e Senado), percebemos que ele funciona com bases muito parecidas com uma imensa pirâmide financeira. Auxiliado por um “Mecanismo”, que segundo o cineasta José Padilha, está sempre onipresente e não deixa rastros. Esquema que auxilia a formação dos grupos e movimenta a ocupação dos cargos importantes, para que todos possam usufruir das propinas e benesses financeiras.
Praticamente todos ganham, claro que, assim como nas pirâmides financeiras, aqueles que estão no topo nunca perdem, recebem muito mais recursos e os distribuem da forma que bem quiserem aos seus imediatos.
O esquema é mantido por grandes grupos financeiros, empresariais e por setores que precisam da ajuda do Congresso para interferir junto ao Poder Executivo, quando da necessidade da emissão de Emendas Parlamentares, Decretos e Leis favoráveis aos seus negócios e negociatas.
Esse negócio movimenta bilhões de reais, que jamais chegam à sociedade na forma de prestação de serviços e obras, como Hospitais, Escolas, Pesquisas Científicas, Saneamento Básico ou obras de infraestrutura. Percebam que nos últimos 32 anos os ocupantes do cargo de Presidente e os ministros que ocuparam o Ministério dos Transportes não fizeram nada em prol das nossas estradas, principalmente na região Centro–Oeste, Norte e Nordeste.
Os esquemas que estão sendo apurados pela Operação Lava Jato representam um décimo do que se rouba no país em grandes esquemas de fraudes em licitações, destinação de recursos públicos desviados de suas finalidades, Caixa 2 e lavagem de dinheiro. Nossos políticos fazem parte de um grande esquema financeiro que tem apoio indireto da Justiça na figura do STF.
Por esta razão que com exceção dos envolvidos com o Mensalão do PT, ninguém mais foi investigado, julgado, condenado e preso por aquela casa de leis nos últimos anos.
A manutenção de Michel Temer e dos senadores Romero Jucá, Aécio Neves e Renan Calheiros é um sinal de que o mecanismo citado por Padilha está entranhado além do Legislativo, muito além. 

12 de outubro de 2017

Nossos problemas estão longe do debate entre esquerda ou direita!

“Não existe um governo corrupto numa
Nação ética, nem há uma Nação corrupta
onde exista um governo ético e transparente”
Leandro Karnal

Existe uma máxima muito conhecida entre as ONGs da sociedade civil, que lutam por transparência e contra a corrupção que é a seguinte: “Município Limpo é País Limpo”.
Nos dias atuais, onde o presidente da república e seus antecessores são acusados de corrupção. O congresso nacional tem 80% de seus membros envolvidos com crimes de corrupção, essa máxima é mais do que atual.
A limpeza deveria começar pelos quintais, ou seja, pelos municípios brasileiros onde vivemos e de certo ficaria muito mais fácil identificar os problemas de corrupção, superfaturamentos de obras, licitações fraudulentas e tantas outras modalidades de crimes contra o erário.
É impossível estabelecermos o total de recursos públicos que são desviados em fraudes e corrupção nos 5.570 municípios brasileiros. Em apenas 370 operações contra fraudes realizadas pela Polícia Federal, pela CGU Controladoria Geral da União e pelo Ministério Público, foram detectados um total superior a R$ 12 bilhões em desvios e fraudes.
Essas operações estão longe dos holofotes da Lava Jato, e atingem menos de 10% das cidades brasileiras, mas nos dão um parâmetro sobre a avalanche de recursos que estão sendo roubados da sociedade brasileira.
Além das licitações com vícios e fraudes, os maiores problemas estão nos Estados do Norte, Nordeste e Centro Oeste, regiões cuja dependência dos recursos federais é praticamente total. Segundo fontes do governo federal, 82% das cidades dessas regiões do país dependem de pelo menos 75% desses recursos, que muitas vezes são desviados ou não são aplicados na sua verdadeira origem.
Engana-se quem pensa que os casos de corrupção acontecem apenas nas médias e grandes cidades brasileiras. O mal está enraizado como, por exemplo, na cidade de Pauini no Estado da Amazônia. Uma cidade de 10 mil habitantes, escondida na floresta amazônica, onde a prefeitura roubou mais de R$ 15 milhões em fraudes. A administração local chegou a comprar 500 bolas de futebol para uma cidade que tem apenas uma quadra de esportes. Pagou R$ 1.870,00 reais para uma suposta lavagem de um Micro-ônibus da Prefeitura.
Em Vilhena, no Estado de Rondônia, a polícia federal já realizou sete operações, que resultaram na prisão de um ex-prefeito, seu vice, ex-secretários, além de sete dos dez vereadores com alguns empresários.
Definitivamente a corrupção está entranhada na política e na administração pública brasileira, provocando um sangramento de bilhões de reais, que deveriam ser utilizados na Saúde, Educação, Segurança, Habitação e Saneamento Básico.
Esses esquemas matam o povo brasileiro aos poucos, punem os honestos que recolhem a mais cruel carga tributária do planeta e não recebem quase nada em troca.
Essa sangria de recursos públicos não tem ideologia, mas sim, a conivência da Justiça que é morosa, conivente e muitas vezes motivadora para estes quadrilheiros. Sem contarmos com a falta de comprometimento do eleitor brasileiro que não leva a sério o ato de votar. Reconduzindo ao poder o seu próprio algoz, o bandido, que fica muitos anos no Congresso, na Assembleia e o pior, na Câmara Municipal, roubando debaixo do nariz daquele que o conduziu ao poder.
Não podemos pensar em “Intervenção militar”, isso seria terceirizar o poder para que os militares tivessem que escolher entre o povo e os corruptores, escolhendo os que são detentores de recursos milionários para manter seus esquemas. Foi assim entre 1964 e 1985. Errar é humano, insistir no erro é burrice.
A saída está na pressão popular via democrática. Isso pode e deve começar com a fiscalização do Prefeito e dos Vereadores de sua cidade. Acompanhe as decisões pela TV Câmara, pela rádio, pelos jornais e se possível, participe das sessões do legislativo. Saiba o que está sendo discutido e aprovado. Reúna seus amigos jovens, adultos ou da terceira idade e comecem uma revolução silenciosa para retomar o poder que é seu, é nosso e de todos os brasileiros.

Sobram políticos, faltam gestores!

Nos governos corruptos, em que há
pelo menos suspeita geral de muita
despesa desnecessária e grande malversação
da renda pública, a quantidade e
quantia de impostos são enormes.
Adam Smith

No Brasil, para o cidadão arrumar um bom emprego, normalmente as empresas exigem experiência profissional comprovada, escolaridade acima do que a função necessita e toda uma série de documentos do candidato. Entretanto, para exercer o cargo de Prefeito em nossas 5.570 cidades, pouco ou quase nada é exigido.
Esse paradoxo é inaceitável, na medida em que, essas pessoas eleitas vão administrar bilhões de recursos públicos e vão inclusive, em muitas ocasiões, interferir na instalação ou contratação das mesmas empresas que dificultam tanto a entrada de um empregado comum em suas organizações.
Hoje as exigências para ocupar um cargo de Prefeito são as seguintes:
Ter a nacionalidade brasileira;
Estar em pleno exercício dos seus direitos políticos;
Estar em dia com o alistamento eleitoral;
Ter “domicílio eleitoral” na circunscrição onde pretende concorrer há pelo menos um ano;
Ser filiado a um partido político há pelo menos um ano;
Não pode ser analfabeto;
Não pode ser militar que esteja na ativa;
Também não podem concorrer ao cargo no Poder Executivo, parentes dos titulares destes cargos;
Percebam que nenhuma exigência é feita quanto à experiência em administração pública ou privada, tampouco se exige uma escolaridade compatível com a importância do cargo de Prefeito, que vão ter sob suas responsabilidades milhares de brasileiros, bilhões de reais em orçamentos e uma gama complexa de situações que envolvem administração pública, saúde, engenharia, mobilidade urbana, entre outras.
Esse é um dos motivos que possibilitam a existência de tantos candidatos eleitos que são verdadeiras nulidades em termos de administração pública, mas que, guiados por marqueteiros e assessores competentes conseguem ludibriar os eleitores incautos. Lembrando ainda, que a mais importante das eleições é justamente aquela que elege vereadores e prefeitos a cada quatro anos.
São eles que vivendo na mesma cidade que o eleitor irão destinar recursos, licitar, comprar e administrar nosso valioso dinheiro. Portanto, é para com estes candidatos que temos de ter atenção redobrada.
Temos de agir como se fossemos empregados do RH – Recursos Humanos de uma empresa, escolhendo quem vai gerir nossos valiosos recursos por quatro anos.
Se não agirmos desta forma, estaremos elegendo ratos para tomar conta do nosso estoque de queijo. Pensem muito nisso!

É na sala de aula que devemos ensinar religião?

“Fanatismo, esse filho
desnaturado da religião.”
Voltaire.

A meu ver o ensino religioso deveria ser ensinado em casa, preferencialmente pelos pais, e praticado junto das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, os princípios éticos e morais deveriam ser a pauta para discussões diversas sobre vários temas que dissessem respeito a ambas.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar o ensino religioso, deixando a cargo do professor ou da escola a vinculação a uma crença específica é a certeza do andar para trás e sem rumo.
O Brasil é um Estado laico e, portanto, deveria incentivar o diálogo entre as mais diferentes confissões no intuito de formar cidadãos tolerantes com as opiniões divergentes. Optando pelo ensino doutrinário de uma religião exclusivista, afundamos ainda mais no pântano do sectarismo em que estamos estacionados.
Nossa sociedade precisa cobrar do Estado um projeto educacional que privilegie a qualidade da educação, a capacitação dos nossos professores para que estes possam promover o debate constante da educação para a cidadania.
Esse conteúdo somente pode ser encontrado no domínio da filosofia, e não na discussão sobre moral submetida a preceitos religiosos duvidosos. Embora alicerce as religiões, a ética as suplanta, pois seus princípios são universais, ou seja, valem em qualquer tempo e em qualquer lugar – enquanto a moral muda conforme os hábitos, costumes e interesses característicos do tempo e do lugar.
“Não roubar” é um conceito ético, que independe da época e do lugar em que se vive e que está presente, acredito na base de todas as religiões do mundo. No entanto, como as religiões defendem princípios morais e não éticos, em nome de Deus, cristãos roubam a liberdade de outros irmãos, muçulmanos roubam a vida de cristãos, e estes vingam seus irmãos roubando a vida de muçulmanos.
Deveríamos lutar para que nas escolas públicas se ensinasse o princípio ético “não roubar, não matar” em geral, ou seja, o respeito à vida de todos igualmente, e não sua derivação moral, de que a ideia de “não matar” não serve para aqueles que pensam ou agem diferente de nós.
Recente pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que crianças educadas em lares não religiosos são mais tolerantes e generosas que as criadas segundo princípios religiosos. Os investigadores recrutaram 1.170 crianças de diferentes crenças em seis países (Canadá, China Jordânia, Turquia, EUA e África do Sul) e demonstraram que há maior coesão entre os membros de grupos religiosos e maior nível de intolerância com quem está de fora. As pessoas que não têm religião tendem a ser mais solidárias, exatamente por não fazerem distinção entre as diversas crenças religiosas.
No Brasil imerso em denúncias de corrupção e cercado pela incompetência generalizada da gestão do Poder Público, vem ancorando seu desencanto na falsa segurança do moralismo. Falsa segurança porque o moralismo – diferente da ética – funda-se em interesses momentâneos de alianças espúrias. Em geral, o moralismo é uma cortina que esconde a hipocrisia e o cinismo. O moralismo censura obras de arte, persegue confissões divergentes, reprime opiniões contrárias, e, pior, mata homens e mulheres.
Em nome do moralismo, quatro mulheres morrem por dia devido a complicações provocadas por abortos clandestinos – mulheres pobres, diga-se de passagem. Em nome do moralismo, todo dia uma pessoa LGBT é assassinada. Em nome do moralismo, as religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé) são cada vez mais hostilizadas, principalmente pela militância fundamentalista evangélica, a ponto de praticamente desaparecerem em alguns nichos tradicionais como as comunidades do Rio de Janeiro.
Precisamos lutar com afinco por uma sociedade mais justa e principalmente mais tolerante. Embora tenhamos a nítida impressão que o Brasil está mais próximo da Idade Média com todo o obscurantismo que marcou aquela época do que o século XXI e toda sua modernidade tecnológica.

4 de outubro de 2017

Dados e fatos a relação suspeita entre poderes em SP!

"Todo governo que não age na base
do princípio da república, isto é,
que não faz da 'res publica' o seu
objetivo completo e único,
não é um governo bom." Thomas Paine.

Desde janeiro de 1995 o Estado de SP é reduto do PSDB, são seis eleições consecutivas com vitórias de Mario Covas (1994/98), Geraldo Alckmin (2002) José Serra (2006) e Geraldo Alckmin (2010/14). Neste longo período aos poucos temos percebido que as relações institucionais entre Poder Executivo e Defensoria Pública, Ministério Público e o Tribunal de Justiça são muito mais próximas do que deveriam.
Isso explica talvez, porque em todos estes anos de mandatos seguidos o MP nunca tenha tido êxito em processos como o Cartel dos Trens (Caro raro onde as empresas estrangeiras foram acusadas de efetivar o cartel, sem a devida correspondência de políticos ou membros do Estado). Caso estranho como o Caso dos desvios da Merenda escolar, que também tinham centenas de evidências e não se reproduziram em condenações de políticos ou servidores do Estado.
Para exemplificar didaticamente vou me valer de uma entrevista concedida ao Blog Justificando do blogueiro Breno da Advogada Luciana Zaffalon quando esta discorre sobre sua pesquisa de tese de doutorado. A pesquisa avalia justamente essa “estranha” relação entre governos tucanos e os poderes da Justiça, Defensoria e MP em SP.
A entrevista tem aproximadamente 58 minutos onde a pesquisadora de forma clara e didática demonstra através de dados, fatos e muita clareza o que ocorre no maior Estado da Nação. Vale a pena ouvir essa entrevista para conhecer e entender um pouco das vantagens que o Estado obtém na Justiça paulista.


2 de outubro de 2017

Vigaristas do Bem!

A exaltação aos protagonistas do fenômeno apelidado Operação Lava Jato não faz justiça a um herói quase anônimo dessa história: os jornalistas, que deixaram a cômoda posição de meros observadores para se tornarem participantes ativos do processo.
Nessa gangorra, a notícia alavanca o inquérito, que gera outra notícia, que dá à luz a denúncia, que, por sua vez, proporciona manchetes. Na falta de investigação, suposição vira verdade absoluta com a publicação da notícia.
A Revolução Judicial brasileira segue a trilha da Revolução Cultural Chinesa: denuncismo, execração e condenações sem julgamento. Falta queimar livros.
Uma nota destinada a um colunista virou inquérito. Nela, o banqueiro André Esteves, o ex-deputado Eduardo Cunha e outras três pessoas reuniram-se na casa de um empresário para festejar uma lei que beneficiou o BTG. O colunista acrescentou: existem fotos da festa.
Pelo favor, o banqueiro teria pagado R$ 45 milhões ao deputado. Nada disso ocorreu. Mas a intriga levou André Esteves para a cadeia. A onda moralista que já respondeu por nomes como macarthismo, inquisição ou fascismo avança. Quem é contra pode ganhar no peito uma estrela de David, como as que distinguiam judeus sob o nazismo.
Enquanto o ministro Gilmar Mendes manteve o perfil condenador, era herói nacional. Foi questionar o atropelamento do direito, a demagogia e o populismo judicial para se tornar alvo de graves acusações. O Gilmar 1.0 tinha a mesma mulher, a mesma carranca e a coragem do Gilmar 2.0. Foi mudar de discurso para se tornar "inimigo do Brasil".
No topo da hierarquia das fontes, Rodrigo Janot disse em rede nacional que uma gravação indicava atos criminosos praticados por ministros do STF, uma mentira rasteira. Disse também que o acordo de delação da JBS seria anulado porque o delator omitiu a gravação que ele próprio entregou quando ainda tinha 60 dias para completar informações. Ninguém notou, claro.
O conluio comporta entrevistas coletivas em off para vazamentos seletivos. De assessores de imprensa, repórteres tornaram-se operadores das operações.
Um juiz condena executivos de uma empresa por atos praticados por administradores de outra. Dinheiro depositado na conta de uma pessoa, por informações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), aparece no inquérito do MPF (Ministério Público Federal) como tendo beneficiado outra.
Comentaristas e oportunistas que trabalham com informação de segunda mão avalizam os erros cheios de fúria, irados.
Para ressuscitar a malfadada Castelo de Areia, depois de meses tentando comprar um acordo com o MPF, Antonio Palocci topou encenar uma fantasia: a de que o trancamento da "operação" foi comprado. E acusou um juiz que nem sequer participou da decisão. Quem pagou, como pagou, onde pagou não interessa.
O jogo mudou o eixo de poder nas redações. Os profissionais mais valorizados do mercado são os que têm relações com procuradores. O preço: divulgar a informação oficial como verdade absoluta. Os jornalistas que integram a "força-tarefa" são os roteiristas da Lava Jato.
O processo judicial está sob julgamento moral não da norma jurídica. Fatos apenas constrangedores são promovidos à condição de "escândalo".
Ao descrever a chama de um fósforo como incêndio na floresta amazônica, a imprensa leva um general voluntarista a dizer que os militares podem tomar o poder para conter tanta corrupção. Se um general não compreende a ilusão de ótica produzida pelo populismo de jornalistas que fraudam notícias, quem compreenderá?

Márcio Chaer é jornalista e assessor de clientes acusados na Operação Lava Jato.

1 de outubro de 2017

Entenda o que Lúcio Funaro diz sobre o "Quadrilhão do PMDB!


Preso desde julho de 2016, o corretor de valores Lúcio Funaro, tido como operador do PMDB fechou um acordo de delação premiada com a Justiça, homologado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em setembro.
A seguir, entenda quem é Funaro e o que ele diz sobre a cúpula do PMDB, grupo que a Polícia Federal batizou de "quadrilhão do PMDB". Os implicados vêm negando as denúncias. "Basta concordar com qualquer coisa [que a PGR] encomendar para obter infinitos benefícios", disse Cunha sobre a delação de Funaro.
Quem é Funaro? Um corretor de valores, que começou a ganhar destaque durante a investigação do mensalão, quando uma empresa sua foi apontada como intermediária de repasses ao partido liberal – PL, atual Partido Republicano – PR.
Na época chegou a ser convocado para depor numa CPI. Foi preso em 2016 na Operação Sépsis, um desdobramento da Lava Jato que teve como ponto de partida a delação de um ex-dirigente da Caixa Econômica Federal.
Na Lava Jato passou a ser citado quando o Grupo Schahin o acusou de perseguição na Câmara, com a ajuda de Eduardo Cunha por meio de requerimentos. Neste ano, na delação da JBS, o empresário Joesley Batista afirmou que Funaro cobrava propinas em diversas áreas do governo federal junto com Cunha.
MICHEL TEMER
- Teria comprado imóveis com propina e recebido dinheiro ilícito "redistribuído" por Eduardo Cunha;
- Teria conhecimento e se beneficiado de propina dos contratos da usina Angra 3;
- Teria dividido propina da Odebrecht com o ex-ministro Geddel Vieira Lima;
- Teria recebido propina da JBS para fazer mudanças no Ministério da Agricultura a favor da empresa;
- Teria dito que entregou R$ 500 mil para o marqueteiro Duda Mendonça para financiar campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo em 2014. Entrega teria sido feita em um escritório na Avenida 9 de Julho a pedido de Cunha para "atender o presidente Temer".
EDUARDO CUNHA
- Teria cobrado propina em contratos de sondas da Sete Brasil;
- Teria dividido propina com Anthony Garotinho quando o primeiro governava o Rio, e o segundo chefiava a Cedae;
- Teria recebido propina no exterior em conta secreta denominada "Glorieta".
MOREIRA FRANCO
- Quando vice-presidente de Fundos e Loterias da Caixa teria atuado para a liberação de um crédito de R$ 300 milhões para uma empresa do grupo Bertin, do grupo em troca do pagamento de "comissão" de R$ 12 milhões para a cúpula do PMDB. Ele teria ficado com 60% dos recursos, Funaro com 15%, e Cunha com 25%.
ELISEU PADILHA
- Seria um dos responsáveis por monitorar a intenção de Funaro em fazer delação premiada
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
- Grupo de Temer, Cunha e Henrique Alves teria recebido cerca de R$ 250 milhões decorrentes de créditos da Caixa repassados pelas vice-presidências de Pessoa Jurídica e de Fundos de Governo e Loterias;
- Indicação de Fábio Cleto para uma das vice-presidências da Caixa para desviar recursos do FI-FGTS para políticos do PMDB;
- Liberação de recursos da Caixa mediante propina que teria abastecido campanhas como a de Gabriel Chalita para a Prefeitura de SP em 2012.

FURNAS
- Temer, Cunha e Henrique Alves teriam recebido propina da Odebrecht e da Andrade Gutierrez em uma obra de Furnas no rio Madeira, em Porto Velho.
FUNDOS DE PENSÃO
- Suposto acerto de R$ 9 milhões para evitar a convocação do ex-presidente da Petros na CPI dos fundos de pensão;
- Funaro diz que operou desvios do Postalis, fundo de pensão dos Correios.

Letícia Casado
De Brasília

30 de setembro de 2017

Uma tese interessante!

"A democracia sobrevive quando a
inteligência do sistema compensa
a mediocridade dos atores"
Daniel Inneraty

Nós, brasileiros, estamos enfrentando a pior crise moral da nossa política desde que Cabral descobriu nossa terra. Nunca em tempo algum tivemos tanta corrupção, tantos parlamentares da Câmara e do Senado envolvidos com crimes de toda ordem e natureza penal.
É verdade, que nunca fomos um povo que se dedicou a votar com consciência e seriedade. Afinal de contas, reelegemos seguidas vezes esses bandidos travestidos de políticos para supostamente nos representarem, algo que nunca fizeram.
São tantos os casos que não caberiam nesse texto, mas os brasileiros sabem que não podemos nos dar ao luxo de reelegermos pessoas que representam setores empresariais, conglomerados bancários, grandes grupos financeiros, corruptores (Que financiam suas campanhas com dinheiro ilícito através de propinas), mas jamais atuam em favor do povo e da nossa Nação.
Não é mais uma questão ideológica, não é mais uma questão de escolha de partidos pura e simplesmente, pois praticamente todos foram envolvidos em escândalos financeiros e criminosos nas últimas décadas.
O PMDB, PSDB, PT E DEM são os maiores partidos, e os que na prática comandam o esquema mafioso que está destruindo o Brasil. O exemplo do Rio de Janeiro é inquestionável, milhões foram desviados pela quadrilha de Sérgio Cabral, recursos da saúde, segurança e educação foram parar em contas no exterior, na compra de brilhantes e obras de arte, num esquema de lavagem de dinheiro público poucas vezes visto no Brasil.
A agricultura está nas mãos do PMDB há 18 anos pelo menos, a pasta de transportes é um covil que não consegue duplicar estradas federais, nem impor obras de infraestrutura sem que haja superfaturamento e desvios de bilhões. Isso para ficar em dois exemplos de ministérios condenados pela corrupção, inércia e ineficácia.
O PT ajudou a destruir a ideia de que a esquerda poderia fazer algo positivo no comando da nação. Aparelhou o Estado, infiltrou membros de sua quadrilha, e possibilitou que um esquema de propinas e troca de favores com grandes empreiteiras, fosse levado aos quatro cantos do país e até ao exterior. Empresas como Odebrecht, OAS, UTC, Mendes Junior, Engevix, chegaram ao ponto sofisticado de terem em seus organogramas departamento de propinas.
Defendo uma tese de que devemos aos poucos, com seriedade e muita consciência eliminarmos da vida pública estes Deputados e Senadores eleição após eleição. Começando em 2018 nas eleições para Câmara Federal e 2/3 de renovação do Senado.
É simples, basta não votarmos em ninguém que esteja na Câmara Federal ou Senado exercendo seu mandato (Nosso, na verdade). Para não deixar brechas, precisamos ficar atentos aos vereadores de nossas cidades. Estes, em troca de muito dinheiro apoiam os políticos que estão no poder. Vamos avisar a eles que quem apoiar políticos com mandato em 2018, não terá nosso voto em 2020.
Cada eleitor tem de fazer isso, não custa, basta pararmos um pouco de delegar aos outros aquilo que nós devemos fazer, Em nome da ética e da honestidade, para o nosso bem, de nossos filhos e netos e da nossa Nação. As redes sociais e a internet são nossos aliados poderosos. Mãos a obra! Espalhe nas redes sociais: 
“Em 2018 na hora de votar, pesquise seu candidato, não vote de forma alguma em quem está exercendo mandato como deputado federal ou senador”.
“Fique de olho nos vereadores de sua cidade, não reeleja quem apoiar deputados e senadores com mandato em sua cidade na eleição de 2018”.

29 de setembro de 2017

Operação mira esquema de corrupção na Receita Federal


Relatórios da Operação Zelotes, obtidos pelo Estado, apontam que o Santander teria obtido R$ 83 milhões em créditos tributários por meio de um esquema de pagamento de propinas na Receita Federal. Conforme a investigação, o banco contratou um escritório de consultoria em 2013, que teria comprado decisões favoráveis do Fisco.
Os recursos foram liberados pela Delegacia Especial da Receita de Instituições Financeiras em São Paulo (DEINF-SP), na qual funcionaria um núcleo de corrupção voltado para beneficiar bancos ilegalmente, supostamente comandado pelo auditor Eduardo Cerqueira Leite. Ele já é alvo de outras denúncias da Zelotes à Justiça, entre elas a que aponta supostos pagamentos indevidos para livrar o Santander de multa de R$ 890 milhões. O caso ainda aguarda julgamento pela 10.ª Vara Federal em Brasília.
As novas investigações, conduzidas pelo Ministério Público Federal e a Corregedoria do Ministério da Fazenda, mostram que o Santander contratou em outubro de 2013 a Lupe Consultoria e Assessoria Ltda, com o propósito formal de identificar possíveis créditos tributários por compensações ou restituições não realizadas pelo Fisco. De acordo com as apurações da Zelotes, o próprio Cerqueira Leite procurava previamente representantes do banco para oferecer a recuperação dos recursos.
As apurações apontam que ele elaborava "papers" com a proposta e a solução jurídica a ser adotada em favor do Santander nos processos. Além disso, indicava o valor de honorários a serem pagos e a quantia a ser "deixada" na Receita. "Creio que algo em torno de R$ 5 milhões seria bom, lembrando que tenho que deixar na delegacia R$ 1,5 milhão", escreveu ele num e-mail enviado ao advogado Mario Pagnozzi, um dos investigados por participação no esquema.
Após a contratação da Lupe, o auditor assinou despachos que fizeram o banco vencer três processos. "Percebe-se que, na tentativa de dissimular a ilicitude da empreitada, firmou-se um contrato de prestação de serviços entre a Lupe e o Santander. Com esse instrumento, tão logo as decisões administrativas fossem proferidas em prol do contribuinte, haveria o pagamento da pretensa consultoria prestada pelo grupo", diz trecho de um dos relatórios da Zelotes.
O documento registra que, embora o Santander tenha contratado uma consultoria "paralela" para cuidar dos casos, eram seus próprios advogados, lotados no setor jurídico da instituição, que continuavam apresentando petições nos processos. Após obter o direito aos créditos, o banco pagou R$ 5 milhões à Lupe, a título de "taxa de sucesso".
As quebras de sigilo da operação mostraram que a empresa bancou, supostamente como compensação pelos "serviços ilícitos", despesas pessoais de Cerqueira Leite. Entre 5 e 9 de setembro de 2014, por exemplo, foram quitados gastos dele, no valor de R$ 29 mil, numa loja de decorações.
Outras duas empresas também pagaram ao auditor R$ 300 mil entre 2010 e 2014. Num depoimento aos investigadores, o responsável por elas, Norberto de Campos, admitiu que "emprestou" as firmas para receber valores de bancos e, posteriormente, repassá-los a Cerqueira Leite. A Zelotes calcula, com base nas declarações do depoente, que o auditor tenha recebido R$ 2 milhões no total.
Outro lado
O advogado de Cerqueira Leite, Renato Vieira, disse que seu cliente nega a prática de qualquer ilicitude e sempre esteve à disposição da Justiça para prestar quaisquer esclarecimentos.
Rogério Cury, defensor de Mário Pagnozzi, afirmou que desconhece a investigação. Ele informou que está disponível para tratar desses e de outros fatos e sustentou que Pagnozzi sempre pautou sua atuação pela licitude. A reportagem não localizou Norberto de Campos e representantes da Lupe.
Já o Banco Santander, por meio de sua assessoria de imprensa, informou ao Estado que abriu mão dos benefícios "tão logo foi alertado pela Receita Federal" sobre as suspeitas de irregularidades nas atividades da Lupe Consultoria e Assessoria Ltda.
O banco diz ter sido criterioso ao contratar a consultoria e que não tinha conhecimento de irregularidades no serviço. Também informa não ter autorizado à participação de terceiros nas atividades constantes no contrato. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Publicado no Jornal A Tarde – Conteúdo do Estadão

Por que o Governo da Catalunha quer ser independente da Espanha?

Esses são os dados essenciais para se entender um conflito que colocou a Espanha no momento político mais complicado em 40 anos de democracia

Espanha está vivendo o momento político mais complicado após a queda, em 1975, da ditadura militar que governou o país durante 40 anos. O intento dos nacionalistas catalães de convocar de forma unilateral um referendo de independência declarado ilegal pela Justiça causou um enorme racha com o resto da Espanha e dentro da própria Catalunha. O Governo espanhol enviou uma grande força policial à região, no canto nordeste do país, e prendeu vários dirigentes políticos que comandavam a organização do plebiscito. Apesar disso, as autoridades catalãs insistem na sua desobediência e tentarão realizar o referendo no domingo próximo, dia 1º de outubro. A tensão é muito grande, com protestos diários nas ruas de Barcelona e outras cidades da região, enquanto no resto da Espanha a posição de força do Governo de Madri (Partido Popular, centro-direita) tem um amplo apoio político e social.
A Catalunha nunca foi uma nação independente, mas tem há muito um Governo próprio, conhecido como Generalitat. Ela estava integrada dentro do reino de Aragão, cuja unificação com Castela, em 1492, deu origem ao nascimento da Espanha. Tem uma língua própria, falada pela maioria da população. A Catalunha sempre foi uma das regiões mais ricas do país e uma das primeiras a conseguir o desenvolvimento industrial. Ao longo do século XX, milhares de espanhóis de outras regiões emigraram para lá na procura de empregos. Sua economia soma hoje 19% do PIB da Espanha e seus 7,5 milhões de habitantes representam 12% da população espanhola.
O sentimento nacionalista cresceu na segunda metade do século XIX e consolidou-se no início do século XX. Nos anos 30 a Catalunha conseguiu autonomia política dentro da República espanhola e os nacionalistas governaram a região. Após um golpe militar em 1936 e três anos da Guerra Civil,  o general Franco tomou o poder e resistiu nele ao longo de 40 anos. A Catalunha, como o resto do país, viveu sob a repressão. O poder ficou totalmente centralizado em Madri e o uso oficial do idioma catalão foi proibido.
A morte de Franco trouxe a democracia. A nova Constituição deu à Catalunha uma grande autonomia política e reviveu a Generalitat. Desde então o partido majoritário foi quase sempre o nacionalista conservador Convergência e União (CiU) que, ainda que lutava por conseguir mais poder para a região, não defendia posições independentistas e até assinava frequentes acordos políticos em Madri com os grandes partidos espanhóis.
O atual enfrentamento começou em 2010, em um momento no que a Espanha estava vivendo uma profunda crise econômica que afetou com especial virulência a Catalunha. Quatro anos antes, os catalães aprovaram em referendo uma nova lei autônoma (Estatuto) que ampliava os poderes da Generalitat e definia a Catalunha como uma nação dentro da Espanha. O conservador Partido Popular fez uma barulhenta campanha em todo o pais contra a nova lei catalã e apresentou um recurso no Tribunal Constitucional espanhol, o qual cortou consideravelmente o Estatuto e não permitiu o uso da palavra nação. Após a sentença, dezenas de milhares de catalães saíram às ruas para protestar na maior manifestação na democracia em Barcelona. A partir desse momento, a escalada do conflito só aumentou.
Desde então, os independentistas se esforçaram para reunir multidões em manifestações convocadas sempre em 11 de setembro, o Dia da Catalunha. Em 2012, ainda em meio à crise econômica e com muitos protestos contra os cortes nas despesas públicas, o presidente regional, Artur Mas, da CiU, disse publicamente que era hora de ter estrutura própria de Estado. Artur Mas, alvo de fortes críticas por sua política de austeridade econômica, alegou que os catalães já estavam cansados de gastar dinheiro para contribuir com o caixa da Espanha. “Não existe batalha mais urgente do que a soberania fiscal de nosso país... Produzimos recursos e riqueza suficientes para vivermos melhor do que vivemos”, disse. Pela primeira vez, um movimento até então muito minoritário via seus anseios refletidos em um presidente que prometia “plenitude nacional”. E que culpava o Governo de Madri por todos os seus problemas.
Dias depois, Artur Mas levou ao Parlamento uma lei para convocar um referendo de independência, mas fracassou. Logo depois convocou eleições antecipadas. Perdeu 12 cadeiras no Parlamento regional que foram majoritariamente para o partido que sempre defendeu a independência, Esquerda Republicana de Catalunha (ERC). Assim a demanda nacionalista se radicalizou. Em 2013, CiU e ERC combinaram um referendo. A grande maioria dos partidos espanhóis e os catalães não nacionalistas recusaram apoiar esse plebiscito. O seu argumento sempre foi que a Constituição espanhola impede a uma região de votar para se separar da União. Mesmo assim o referendo foi realizado em 9 de novembro de 2014. Como a iniciativa havia sido denunciada diante da Justiça pelo Governo central, com o apoio dos partidos contra a independência, a Generalitat deixou de chamá-lo de referendo e passou a denominá-lo “processo participativo”. Para evitar se expor a uma inabilitação judicial, os governantes catalães deixaram que a consulta fosse organizada por voluntários. A votação ocorreu com urnas de papelão. Os partidos não independentistas boicotaram e pediram que suas bases não participassem. No final votaram 2,3 milhões de pessoas de um censo estimado de 5,4 milhões de catalães. Dentre eles 80,76% foram a favor da independência.
Paralelamente, foram descobertos casos de corrupção que minaram o partido de Artur Mas. A polícia e a Justiça desvendaram que a CiU costumava cobrar 3% de propina em obras públicas. Jordi Pujol, presidente durante duas décadas, padrinho político de Mas e a grande figura do nacionalismo catalão desde a queda da ditadura, teve que reconhecer que escondeu uma fortuna no paraíso fiscal de Andorra, e acabou sendo acusado de lavagem de dinheiro e crime fiscal.
Artur Mas voltou a convocar eleições em 2015 e formou uma grande coligação nacionalista com a ERC, chamada Juntos pelo Sim. O seu objetivo era fazer dessas eleições um plebiscito a favor da independência. Embora os partidários da separação da Espanha não tenham conseguido chegar a 50% dos votos, somaram à maioria de deputados no Parlamento regional, entre o Juntos pelo Sim e uma agremiação nova, a Candidatura de Unidade Popular (CUP). A CUP, anticapitalista e defensora de uma estratégia radical de ruptura com a Espanha, obrigou Artur Mas a abandonar a presidência em troca de seu apoio para poder governar. O dirigente nacionalista foi substituído por outro membro de Convergência mais claramente independentista, Carles Puigdemont.
Apesar dos protestos dos partidos na oposição e das advertências do Governo, advogados, juízes, empresários e instituições europeias, os partidos independentistas aprovaram no dia 7 de setembro deste ano uma lei para convocar um referendo em 1º de outubro. E o fizeram impedindo as emendas da oposição, que, por sua vez, acabou abandonando suas cadeiras no Parlamento.
No mesmo dia, o Tribunal Constitucional espanhol suspendeu em caráter de urgência essa lei. No dia seguinte, os independentistas aprovaram outra lei, chamada de desconexão, que contempla todos os passos para a proclamação da República da Catalunha. Também foi suspensa pelo Tribunal Constitucional.
As pesquisas de opinião mostram que a população catalã está muito dividida, sem uma maioria clara a favor da separação da Espanha. Segundo o último levantamento feito pelo próprio Governo catalão, há dois meses, 49% eram contra a independência, e 41% a favor. Mais uma pesquisa realizada na última semana pela empresa Metroscopia para o EL PAÍS salientou que 61% acham que o referendo convocado para o 1º de outubro não é válido legalmente. Porém 82% desejam que os governos de Madri e Barcelona negociassem um acordo para realizar um plebiscito dentro da legalidade. Para isso, seria preciso a abertura dum processo de diálogo. Mas faz muito tempo que as conversas entre as duas partes foram interrompidas.

Artigo publicado no Jornal El Pais - Espanha

26 de setembro de 2017

Uma sociedade mal informada!

Ninguém pretende que a democracia seja
perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que
a democracia é a pior forma de governo,
salvo todas as demais formas que tem
sido experimentadas de tempos em tempos.
Winston Churchill

O Brasil é um dos poucos países do mundo que mesmo após ter passado por uma ditadura militar, fruto de um golpe em 1964, ainda tem saudade e até faz apologia a uma improvável nova intervenção militar. A desculpa utilizada é que a corrupção dos políticos está insuportável. Como se de 1964 a 1985 todos os corruptos tivessem sido julgados, condenados e presos pelo sistema militar.
Se assim fosse, a ditadura militar não teria colocado no poder José Sarney como governador do Maranhão em 1965, Paulo Maluf como governador de São Paulo em 1978 ou mesmo guindado ao poder Antônio Carlos Magalhães – Toninho Malvadeza na Bahia.
O problema da corrupção e dos políticos que a praticam junto com empresários corruptores é idêntica às pessoas que votam sem consciência. Gente que leva a vida e as eleições na farra, muitos deles sem comparecer as urnas. Para estes, qualquer regime serve, pois eles não estão nem um pouco preocupados com o destino da Nação. Querem ganhar dinheiro facilmente ou viver do ócio mental.
Santa inocência acreditar que no período entre 1964 e 1985 o país não teve corrupção, como se esta, existisse apenas antes e depois do período militar. Reza a lenda, que nas grandes obras realizadas pela ditadura a propina era a mesma, apenas o que a diferenciava era o percentual que nunca ficava acima de 10% do valor da obra.
Neste período tivemos os Casos Capemi, Coroa Brastel, Delfin, BrasilInvest, PauliPetro, Projeto Jari apenas para destacar os mais importantes. O que acontecia na época é que estes e muitos outros crimes ficavam acobertados e a imprensa não podia noticiá-los sem a autorização dos generais. Assim ficava fácil o sistema parecer honesto.
Supor que seja um grande exemplo, os generais supostamente terem morrido pobres não me comove, nem altera o terror que o país vivenciou durante o período negro dos governos militares. Até no futebol eles se meteram, tirando um treinador da seleção e o substituindo por uma comissão técnica de pessoas ligadas ao regime.
Algumas pessoas conservadoras odeiam Cuba, embora amem dizer que nosso país precisa de “intervenção militar”. Suas argumentações são de que o regime ditatorial cubano não dá liberdade ao seu povo e prende os oposicionistas ao regime. E o que os militares fizeram no Brasil enquanto estavam no poder? Assim foi no Chile, Argentina, Bolívia e tantos outros países onde a democracia foi sequestrada por militares.
O nosso caos de corrupção vem de muito longe, está ligado a alguns fatores, entre eles a ganância, a impunidade provocada por leis com penas brandas, a justiça morosa e conivente aliada a liberdade demasiada que partidos políticos têm para manipular cargos e recursos sem o devido controle.

22 de setembro de 2017

As forças armadas não agem contra o "Caos", mas são parte fundamental dele!


Talvez não exista momento mais propício do que este para se lembrar da frase de Adorno e Horkheimer, para quem há horas em que não há nada mais estúpido do que ser inteligente. A frase se referia à incapacidade de setores da sociedade alemã de encararem claramente os signos de ascensão do nazismo no começo dos anos 1930 e pararem de procurar explicações sutis e inteligentes sobre a impossibilidade de o pior ocorrer. Dificilmente raciocínio dessa natureza não se aplicaria ao Brasil atual.
De fato, nosso país tem ao menos a virtude da clareza. E foi com a clareza a guiar seus olhos redentores que o general Antonio Hamilton Mourão revelou aos brasileiros que as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil. Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o "caos" for iminente.
O "caos" em questão não é a instauração de um governo ilegal e brutalizado saído dos porões das casernas. Ao que parece, "caos" seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu à crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?
Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.
De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.
Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o "caos". Elas foram parte fundamental do caos.
É verdade que setores da sociedade civil sonham com mais um golpe como forma de esconder o desgoverno que eles mesmos produziram. Há setores do empresariado nacional que articulam abertamente nesse sentido, sonhando como isto não terem que se confrontar mais com uma população que luta pelos seus interesses. Para tanto, eles apelam ao artigo 142 da Constituição de 1988.
Este artigo fora, desde o início, uma aberração legislativa imposta pelos próprios militares. Ele legalizava golpes de Estado, da mesma forma que o artigo 41 da República de Weimar, que versava sobre o estado de emergência, permitiu a ascensão da estrutura institucional do nazismo. Segundo o artigo, se qualquer poder chamar as Forças Armadas para garantirem a ordem, se digamos o Sr. Rodrigo Maia fizer um apelo às Forças Armadas porque há "caos" em demasia, o golpe está legalizado. Ou seja, é verdade, nossa Constituição tinha uma bomba-relógio no seu seio. Bomba pronta a explodi-la, como agora se percebe.
Contra essa marcha da insanidade, há de se lembrar que, se chegamos ao ponto no qual um general na ativa pode expor abertamente que conspira contra o poder civil, então cabe àqueles que entendem não terem nascido para serem subjugados pela tirania, que não estão dispostos a abrir mão do resto de liberdade que ainda têm para se submeter a mais uma das infindáveis juntas latino-americanas, prepararem-se para exercer seu mais profundo direito: o direito de resistência armada contra a tirania.
Que os liberais se lembrem de John Locke e de seu "Segundo Tratado sobre o Governo". Que os protestantes se lembrem de Calvino e de sua "Instituição da Religião Cristã". E que o resto se lembre que a liberdade se defende de forma incondicional.

Autor: Vladimir Safatle - Professor livre docente do Departamento de Filosofia da USP - Escreve às Sextas para a Folha de SP.

15 de setembro de 2017

Todas as malas do Presidente Temer!


segunda denúncia contra Michel Temer é mais forte e mais abrangente do que a primeira, engavetada pela Câmara no mês passado. Desta vez, o presidente é acusado de chefiar uma organização criminosa que roubou os cofres públicos durante mais de uma década. Na flechada inicial, a Procuradoria afirmou que Temer seria o destinatário de R$ 500 mil entregues a um assessor. A quantia parece gorjeta diante dos valores citados na nova acusação submetida ao Supremo.
De acordo com a Lava Jato, o "quadrilhão" do PMDB da Câmara embolsou mais de meio bilhão de reais em propinas. Em valores exatos: R$ 587.101.098,48. Isso encheria quase 1.200 malas iguais à que foi filmada com Rodrigo Rocha Loures.
A bolada teria sido dividida entre Temer e seis aliados. Quatro já foram presos: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e o próprio Loures. Outros dois estão no Planalto: os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha.
A nova denúncia reúne mais provas do que a anterior. Entre elas, recibos de depósitos no exterior e planilhas do Drousys, o sistema secreto que registrava o repasse de propinas da Odebrecht. A peça é reforçada pela delação de Lúcio Funaro, o doleiro que entregou um "pacote" ao melhor amigo do presidente.
O Planalto já se arma para a nova batalha na Câmara. À primeira vista, o cenário parece indicar outra vitória do governo. Temer conseguiu enterrar a denúncia por corrupção passiva com 263 votos, quase uma centena a mais que os 172 necessários.
Contam a seu favor o silêncio das ruas, o apoio do empresariado e o desejo de "estancar a sangria" causada pela Lava Jato, que une políticos de todos os grandes partidos.
No entanto, alguns fatores podem abrir caminho para uma zebra. Entre eles, a ameaça de uma delação de Geddel e o clima de insatisfação na bancada governista. Os homens do presidente estão indo em cana, mas a demanda por malas só aumenta. 

Autor: Bernardo Mello Franco
Jornalista, assina a coluna Brasília. Na Folha, foi correspondente em Londres e editor interino do 'Painel'. Escreve de terça a sexta e aos domingos.

13 de setembro de 2017

Algoritmos e autocompletar: Como a tecnologia decide nosso futuro!

        Computadores podem prever o futuro? Nós queremos desesperadamente que o façam, se contarmos a simples tonelada de histórias de ficção científica que consumimos ao longo das décadas contendo oráculos tecnológicos que tudo sabem, usando seu imenso poder de cálculo para chegar a cada detalhe da mesma forma que o Deep Blue da IBM joga uma partida de xadrez.
As magníficas Minds (Mentes) que modelam o comportamento de civilizações inteiras ao mesmo tempo em que calculam os saltos pelo hiperespaço nos romances "Culture" de Iain M. Banks. C-3PO recitando as chances de sobrevivência para Han Solo em "Star Wars".
Por ora, entretanto, os videntes de silício não estão profetizando o futuro distante como deuses de IA. Em vez disso, eles estão ingressando no futuro próximo, estendendo gradualmente o alcance do que engenheiros de computação chamam de forma variedade de previsão, antevisão ou antecipação. Carros autônomos pisam no freio segundos antes de um acidente ocorrer.
Algoritmos de compra e venda de ações preveem flutuações de mercado com milissegundos crucias de antecedência. Ferramentas proprietárias preveem as próximas canções e filmes de Hollywood que farão sucesso. As formas com que a computação está se aproximando do futuro me recordam uma velha frase de William S. Burroughs: "Quando cortamos o presente, o futuro vaza". 'Os futuros nos quais pode pensar os futuros que você pode prever, são moldados pelo código de alguém. '
Melhores previsões do futuro próximo também estão começando a aparecer em todo tipo de produto de consumo. Costumávamos rir das malucas recomendações da Amazon e do infame Clippy da Microsoft, que aparecia para "ajudar" de forma ineficaz a escrever uma carta no Word, mas as previsões que vemos atualmente parecem com maior frequência assustadoramente precisas.
Considere o autocompletar do Google, aquela pequena série útil de textos sugeridos que aparece quando você começa a digitar no campo de busca. Como um gênero de profecia, isso pode parecer bem bobo. Mas considere com que frequência o usuário típico de internet faz uso dessas pequenas sugestões todo dia, as utilizando não apenas para economizar na digitação de algumas letras a mais, mas como uma espécie de minibusca por conta própria: uma rápida checagem ortográfica, uma checagem de fatos e "zeitgeist", tudo mesclado em uma coisa só.
O nome que você está pesquisando aparece junto com "namorada" ou "casada" depois dele? O que o Google sugere após você digitar "como eu"? (As sugestões do Google para mim foram "chego em casa; renovo o passaporte; tiro um passaporte; te amo". Obrigado, Google.).
Essas previsões se baseiam nas palavras que milhares de outras pessoas digitam nos campos de busca, mas também são personalizadas para você com base em seu próprio histórico de navegação, localização e o que quer que o Google use como referência em seu extenso arquivo a seu respeito.
Isso pode parecer uma conveniência banal, mas também é uma forma de reinventar o relacionamento que todos temos com o "agora" e o "logo". Anos atrás, o Google percebeu que as pessoas se irritam com demoras no tempo de resposta, mesmo que sejam de menos de um segundo.
De fato, os seres humanos podem se incomodar com qualquer atraso que seja perceptivelmente maior do que a velocidade com que nosso próprio sistema nervoso pode ser capaz de responder a estímulos (cerca de 250 milissegundos). Assim, caso o Google queira oferecer algo para você agora, ele luta para fazê-lo no mesmo tempo que leva para seu pé informar que você deu uma topada com o dedão.
Ao fazê-lo, ele amplia os limites do que é possível em gratificação instantânea, ao tentar adivinhar o que você deseja antes que você possa articular. O autocompletar salta à frente do agora para lhe oferecer o futuro próximo em uma bandeja de prata.
A qualidade preditiva do algoritmo se torna mais interessante quando você pega uma sugestão do autocompletar que não era bem o que você estava pesquisando, mas perto o suficiente para você aceitá-la por ser um mamífero preguiçoso. Pois nesse caso de sua busca sobre gatos ou ansiedade com palhaços, o Google não apenas previu o futuro, mas o mudou. Agora, multiplique essa possibilidade pelas 3,5 bilhões ou mais de buscas que a empresa processa por dia.
Outro tipo de moldagem do futuro
O autocompletar é apenas um pequeno exemplo das muitas formas com que as previsões por algoritmos moldam o futuro. Pense em seu relacionamento com o Facebook: a principal fonte de notícias para muitas pessoas.
A rede social emprega enormes recursos preditivos para descobrir como encher seu feed com conteúdo e conexões que façam você voltar ao site. Você é liberal ou conservador? Rico ou pobre? Qual é sua etnia, sua localização geográfica, sua marca favorita de roupas? Os anunciantes também querem saber e contam com a capacidade cada vez mais formidável do Facebook para aprimorar sua demografia, influências e preferências.
À medida que os anúncios se tornam mais bem direcionados, maior é a probabilidade deles de influenciar os produtos que você compra os presentes que recebe as viagens que faz o bairro no qual vai morar, ou quando tomar grandes decisões, como mudar de emprego ou se casar.
E as decisões dos algoritmos a respeito de com quem compartilhar o próximo grande evento de sua vida manterão o loop de feedback para outros. Esses dados também podem ser usados para discriminá-lo. Já pode tê-lo feito, como ocorreu com um velho sistema de anúncios do Facebook, que permitia aos clientes excluir "afinidades étnicas" específicas de verem anúncios de imóveis residenciais, crédito e emprego. (A empresa agora alega que implantou políticas que previnem esse tipo de discriminação deliberada).
Mesmo se não houver uma enorme pasta parda em Palo Alto rotulada de "negros no Facebook", os algoritmos são escritos de forma instrumental para considerar diferenças demográficas percebidas. O programa encherá seu feed de postagens e anúncios que ele acha que você (ou melhor, o entendimento dele às vezes incrível, mas no final impreciso, de você) gostará cada um com o potencial de se transformar em uma profecia que se autorrealiza do que você gostará.
O feed parecerá semelhante para aqueles que ele achar que são semelhantes a você, mas muito diferentes para alguém que ele associar com outras categorias demográficas e sociais.
Esse é outro tipo de moldagem do futuro: ele manipula a informação sobre a qual estamos cientes, não apenas as coisas nas quais nos concentramos, mas as coisas no horizonte sobre as quais estamos vagamente cientes. Mas essas coisas nas margens com frequência voltam e se transformam no futuro. Como temos uma capacidade limitada de pensar nas decisões que não se encontram no agora imediato, vislumbrar algo de canto de olho (digamos, uma propaganda de uma marca de tênis que seus amigos no Facebook gostam) pode influenciar você posteriormente, porque o anúncio coloca aquele tênis em uma lista curta de coisas que você pode vir a querer posteriormente.
Também facilita para você a decisão de comprar tênis daquela marca (um fato que os anunciantes conhecem muito bem). Nossos algoritmos se infiltram bem ali, entre nossa complacência e nossa ansiedade para preencher as lacunas. Aquele anúncio de uma imobiliária ou de anel de noivado pode estar próximo o bastante da coisa que achávamos que queríamos a ponto de ser mais fácil apenas clicar nele. Mas ao fazê-lo, nos tornamos as versões rasas de nós mesmos previstas pelo algoritmo e, no caminho, limitando as possibilidades de nossa experiência. Mamíferos preguiçosos.
Esse tipo de previsão apenas se tornará mais predominante, assim como mais sedutora em sua conveniência, à medida que os algoritmos melhorarem e os alimentarmos com mais dados com nossas buscas, nossos aparelhos domésticos inteligentes, nossas atualizações nas redes sociais e nossos crescentes arquivos de fotos e vídeos. O Facebook está próximo, literalmente, de ler sua mente.
Em sua conferência anual de desenvolvedores, ele apresentou uma nova tecnologia que pode transcrever texto diretamente do pensamento. E se, como o autocompletar, o texto for quase o que você pensou? E se seu cérebro, uma ferramenta incrivelmente adaptável, moldar seu pensamento para se tornar mais adequado ao algoritmo, e você se ver pensando no Facebook, assim como você ficou sonhando em francês por semanas antes da grande prova do Advanced Placement (programa para ajudar a ingressar na faculdade)? Agora, os futuros nos quais pode pensar são moldados pelo código de alguém.
Essa é uma versão extrema de como os computadores podem vir a prever o futuro, ao menos em seus detalhes particulares. Mas em relação ao futuro de forma geral, isso acontece o tempo todo. Nós cortamos e picamos o presente em milhões de diferentes modelos, fazendo todo tipo de suposição sobre o que podemos e não podemos prever.
Quanto mais dependemos de computadores para lidar com o futuro próximo para nós (para que lado eu viro? O que devo ler? Com quem devo sair?), mais limitado se torna nosso mapa do presente e o futuro potencial. Nós invertemos William S. Burroughs: cortando o futuro e o transformando em pedaços distintos do presente desnaturados de ambição, mistério, dúvida e de um propósito humano mais profundo. Podemos obter uma resposta para nossa pergunta, mas não sabemos o que ela significa.
Para a maioria de nós, a maior parte do tempo não é o futuro nebuloso, de longo prazo, que importa. São os próximos cinco minutos, o dia seguinte, a próxima linha de conversa. Essas são as previsões que os algoritmos desejam fazer por nós ao moldarem as decisões reais que movem nossa vida adiante. Mas o futuro não se resume às futuras decisões em nosso campo de visão. É o espaço em branco no mapa, a zona de possibilidade e esperança. Nos melhores dias, é o telescópio pelo qual vemos a melhor versão de nós mesmos finalmente se concretizando.
Mas esses algoritmos podem ser tão atraentes nas formas que acabam mapeando nosso futuro próximo a ponto de obscurecerem as mudanças lentas e dramáticas que podem levar décadas para se realizar. Os algoritmos são tão eficazes em preencher cada momento disponível de tempo livre com "pings" e atualizações que excluem oportunidades vitais para sonhos e autorreflexão: os momentos em que você de repente percebe que precisa largar seu emprego ou escrever um livro ou mudar quem somos.
Todos já tivemos essa experiência de descoberta de uma nova versão de nós mesmos, totalmente imprevisível por qualquer modelo. Esses futuros não são algo que deveríamos entregar aos cuidados de um algoritmo.

Autor: Ed Finn - Publicado no The New York Times
Tradutor: George El Khouri Andolfato