20 de maio de 2016

Incoerência!

Aqueles que odiavam o PT, Lula e principalmente Dilma, estão vivendo nestes dias uma situação embaraçosa. O governo Temer que muitos dizem ser ilegítimo e golpista, ou que na melhor das hipóteses é fruto de uma ação traiçoeira de quem era parceiro e cúmplice até alguns meses atrás está começando com o pé esquerdo sua gestão.
Mesmo tendo arquitetado sua ascensão ao poder com muito tempo e calma, Temer nomeia um ministério que não condiz com o clamor das ruas. Afinal, os manifestantes e batedores de panelas alegavam serem contra a corrupção no país.
A corrupção está presente na nova equipe de governo através de: Políticos citados na Operação Lava Jato que viraram ministros e ganharam foro privilegiado; O novo ministro dos Transportes é suspeito de desvio de verba de merenda escolar;
O Itamaraty fornece passaporte diplomático a pastor citado na Lava Jato; O Brasil tem pela primeira vez um presidente acusado de ser ficha suja; Gilmar Mendes [quem mais?] reenvia processo contra Aécio Neves à Procuradoria-Geral da República em menos de 24 horas; O novo líder do governo na Câmara é acusado de homicídio.
Além desse fator, resta-nos a frustração para quem imaginava que o governo Temer fosse desaparelhar as estatais, enxugar a máquina governamental, demitir milhares de ocupantes de cargos comissionados proporcionando enorme economia às finanças do país. Nada disso está acontecendo nestes primeiros dias de Temer. A demonstração inequívoca de que está perdido e nas mãos de políticos e partidos sem escrúpulos fica a cada momento mais notório.
Não encontrar mulheres e negros competentes num país de 200 milhões de habitantes é o menor dos problemas de Temer. Postar um logo que seu filho de sete anos escolheu com a imagem da época de 1964, quando não haviam ainda cinco novos Estados também é superável, porém, ser incapaz de nomear especialistas nos assuntos técnicos é imperdoável.
Nossos políticos, e Temer se inclui nessa casta, não conseguem enxergar solução sem loteamento de cargos, sem trocas de favores, sem que haja uma situação vantajosa para eles independentemente do que sobrar para o povo.
Quem queria o fim da corrupção ou apenas a saída do PT, terá de conviver com a sombra de um governo fraco, omisso, perturbado pelas acusações de parte da sociedade que continua rachada, mas que vai cobrar sem dó as ações prometidas antes do impeachment.
Em meio a esse turbilhão, existe um congresso nacional podre, submisso às propinas e as acusações de leviandade de toda espécie. Um grupo de parlamentares dos mais fracos que se tem notícia na democracia nacional. Eles certamente não estão, nem nunca estiveram preocupados com a economia, a gestão pública e a sociedade que os sustenta. Portanto, se for contar com eles, Temer irá pelo mesmo caminho que sua antecessora. Afinal, nem Michelzinho, filho de Temer com sete aninhos de vida confiaria nessa escória que ocupa um mandato no Congresso Nacional.     

14 de maio de 2016

Um começo nada promissor!

Tem políticos que aspiram tornar-se Mickey Mouse...
Ser tão encantador que as pessoas
esqueçam que eles são ratos.
Autor desconhecido

Começou neste dia 12 de maio de 2016, o governo provisório de Michel Temer, denominado por seus homens de marketing como “Governo da Salvação”, cujo logotipo é a bandeira nacional estilizada com as palavras Ordem e Progresso.
A escolha de sua equipe de governo deixou de lado mulheres, negros e foi recheada de velhos políticos da nossa combalida escória partidária. Nenhuma surpresa, nem nomes oriundos da ciência, das universidades, que pudessem dar um pouco mais de esperança ao povo brasileiro.
Dentre os nomes do chamado “mais do mesmo” da política rasteira do Brasil, Temer caprichou na busca por gente que deve muito à justiça do nosso país. Isso sinaliza que nem as recentes prisões e investigações assustam alguns políticos e partidos brasileiros. Dentre estes chama a atenção os seguintes escolhidos por Temer e seus partidos aliados:
O novo ministro da Agricultura é Blairo Borges Maggi (PP-MT) considerado pelos ambientalistas como um dos maiores promotores do desmatamento e destruição da Floresta Amazônica. Apelidado de Motosserra ele não tem escrúpulos e teve a coragem de criar o Programa MT Legal, que visava estimular a regularização e legalização fundiária, algo que obviamente não realizou.
É sua a famosa frase: "Para mim, um aumento de 40% no desmatamento não significa nada; não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior que a Europa toda e que foi muito pouco explorada. Não há razão para se preocupar”. Será esse senhor que cuidará da política de agricultura do Brasil neste governo da Salvação Nacional.
Outro nome emblemático da equipe de Temer é o de seu Secretario de Governo Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), político que assim como outros da equipe esteve nas gestões petistas de Lula ou Dilma. Geddel ocupou o cargo de Ministro da Integração Nacional na segunda gestão de Lula entre 2007 e 2010. Período em que privilegiou seu Estado natal com 90% (Noventa por cento das verbas liberadas).
Por liberar essas verbas, Geddel foi acusado de favorecimento, mas todas as acusações foram desmentidas pelo presidente Lula. Que amigo hein? Em troca Lula se manteve distante do processo eleitoral na Bahia.
Mas o grande desempenho de Geddel foi no escândalo envolvendo os chamados "Anões do orçamento", descoberto em 1993, em que parlamentares manipulavam emendas orçamentárias com a criação de entidades sociais fantasmas ou participação de empreiteiras no desvio de verbas.
O esquema era comandado pelo deputado baiano José Alves, que ficou conhecido por afirmar ter ganhado 56 vezes na loteria em 1993. Geddel era apoiado pelo político de João Alves e foi responsável pela liberação de várias emendas para ele. Foi também acusado de ter recebido verba de empreiteiras.
Outro ministro escolhido pelo governo da Salvação Nacional foi Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para o Ministério do Turismo, onde estava até poucas semanas atrás na gestão de Dilma Rousseff.
Henrique Alves teve seu nome envolvido na Operação Lava Jato a partir dos termos de colaboração do doleiro Alberto Youssef e passou a ser investigado pelo MPF, estando presente na lista do PGR, conhecido popularmente como lista de Janot. 
Em 15 de dezembro de 2015, uma nova fase da Lava Jato, batizada de Operação Catilinárias, o STF, através do ministro Teori Zavascki autorizou buscas pela Polícia Federal na casa de Henrique Alves. É mais um que a corrupção não cola e tem imunidade Mega Blaster na esfera do STF e da Justiça. Assim como tantos outros delatados que nunca foram ouvidos na PF, nem no STF.
Para não me alongar muito vou citar o novo Ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações Gilberto Kassab do PSD-SP. Era aliado e braço direito do PT, mas de repente resolveu mudar e apoiar o outro lado da força. Força que imediatamente após o impeachment lhe dá um ministério para ocupar.
Kassab foi acusado de irregularidades sobre a origem de seu patrimônio, que aumentou 316% acima da inflação (de R$ 102 mil para R$ 985 mil), de 1994 a 1998, período em que exerceu o cargo de deputado estadual e de secretário de planejamento do ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Já o patrimônio declarado no ano de 2008 era de R$ 5.107.628,31.
Em 2004, a juíza Maria Gabriella Sacchi, da 11ª Vara da Fazenda Pública, determinou a quebra dos sigilos bancários do então candidato a vice-prefeito na chapa de José Serra (PSDB), sob a acusação de enriquecimento ilícito. Em 2005, o Conselho Superior do Ministério Público de São Paulo confirmou arquivamento do inquérito de enriquecimento ilícito contra o vice-prefeito.
Em 20 de fevereiro de 2010, o juiz da 1ª zona eleitoral de São Paulo, cassou os mandatos de Kassab e da vice-prefeita Alda Marco Antônio por entender como ilegais as doações feitas pela Associação Imobiliária Brasileira (AIB), construtoras e Banco Itaú, mas, no dia seguinte, garantiu a permanência do prefeito de São Paulo até o julgamento final do processo de cassação de seu mandato. As doações ilegais somariam dez milhões de reais. As empreiteiras patrocinadoras teriam recebido 243 milhões de reais em contratos já pagos pela prefeitura desde 2009.
Nota-se que as acusações são muitas e as atuações da Justiça são sempre excessivamente benevolentes e imorais com essa gente que usa seus cargos e poder político para se safar de penas de todo tipo. Para que serve mesmo a Lei da Ficha Limpa?
No total são 13 investigados premiados com o voto de confiança de Temer e a nomeação para um ministério da Salvação nacional. Deus nos ajude e proteja!

13 de maio de 2016

Nós acusamos


Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:
Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.
Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.
Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.
Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de "austeridade" na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de "democracia".
Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.
De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.
Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi à mão que cavou sua própria sepultura. Que este erro sirva de lição à esquerda como um todo.
Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.
Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa "conciliação nacional" pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.
Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.
Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.
Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político. Nesse momento em que alguns inclinam-se a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.
Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.
Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.

Texto do Professor livre docente do Departamento de Filosofia da USP Vladimir Safatle para a Folha de SP.

11 de maio de 2016

Alguns legisladores não passaram pelos bancos escolares ou precisam voltar a eles!

Seria uma atitude muito ingênua esperar que
as classes dominantes desenvolvessem uma forma
de educação que permitisse aos menos favorecidos
perceberem as injustiças sociais de forma critica.
Paulo Freire
 Os Professores da rede estadual de ensino de Alagoas foram surpreendidos no último dia nove de maio deste ano, ao saberem que estão proibidos de expressarem opiniões em sala de aula para que haja "neutralidade" nas escolas públicas.
O absurdo que beira um ato de ditadura está publicado no Diário Oficial do Estado de Alagoas através da promulgação da Lei n.º 7.800/16, que trata do projeto Escola Livre. A lei determina que professores da rede estadual de ensino não podem mais opinar durante aulas e traz ainda punição para quem descumpri-la.
A promulgação da lei foi assinada pelo presidente interino da ALE (Assembleia Legislativa de Alagoas), deputado Ronaldo Medeiros (PMDB). Em meio à polêmica, Medeiros informou que é contrário à Escola Livre, mas como presidente da ALE tinha que assinar a promulgação da lei porque o projeto foi aprovado pelos deputados.
Embora ainda timidamente, a sociedade alagoana vem reagindo contra este escárnio. O último deles ocorreu na quinta-feira (12), quando estudantes invadiram o plenário da assembleia com faixas pretas na região da boca, fazendo alusão à mordaça, e com cartazes pedindo que o presidente da Casa Legislativa não promulgasse a lei. O grupo permaneceu no local por cerca de três horas e, depois, saiu pacificamente. Policiais Militares monitoraram toda manifestação.
Segundo o texto, estão proibidas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica, bem como a veiculação, em disciplina obrigatória, de conteúdos que possam induzir aos alunos a um único pensamento religioso, político ou ideológico. A lei destaca ainda que o professor não poderá abusar da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos para cooptá-los para qualquer tipo de corrente específica de religião, ideologia ou político-partidária, entre outros pontos, que incitem os alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas.
O Escola Livre define ainda que a Secretaria Estadual de Educação e o Conselho Estadual de Educação são os responsáveis por fiscalizar os professores em sala de aula. Se Geraldo Alckmin tomar conhecimento com certeza irá fazer o mesmo em São Paulo.
Nas Alagoas o professor que descumprir a lei estará sujeito a sanções e as penalidades previstas no Código de Ética Funcional dos Servidores Públicos e no Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos Civil do Estado de Alagoas. Ou seja, quem descumprir a lei poderá ser advertido, suspenso ou demitido.
Esse é mais um dos muitos motivos que devem manter a sociedade civil brasileira atenta às manobras dos nosso abjetos políticos despreparados e na maioria das vezes mal intencionados para com a democracia brasileira.
Os prefeitos, governadores e demais políticos não suportam ver a juventude, as classes trabalhadoras, os inúmeros movimentos de defesa da sociedade civil questionando-os e lembrando-os diariamente dos seus deveres constitucionais.
Seria cômico se não fosse trágico alguém nominar um projeto de cerceamento do direito de pensar e expor suas ideias como sendo “Escola Livre”. Como algo pode ser livre sendo cerceado para manifestar suas ideias, seus conceitos e experiências vividas?
Mais surreal ainda é verificar que o governador Renan Calheiros Filho, seu Vice e atual Secretario da Educação Luciano Barbosa foram contra o projeto e mesmo assim ele foi promulgado, envergonhando o povo alagoano, terra do Menestrel das Alagoas Teotônio Vilela.

http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/10/20/janot-diz-que-lei-de-al-que-proibe-opiniao-de-professor-e-inconstitucional.htm

Benesses que custam muito caro, mas não incomodam tanto!

“A dúvida é o começo da sabedoria" Segurs

O futuro possível governo de Michel Temer promete rever os gastos públicos excessivos dos benefícios concedidos aos setores empresariais. O conjunto dessas benesses cria uma verdadeira “Bolsa Empresário” e vai custar aos cofres públicos em 2016 cerca de R$ 270 bilhões.
Para se ter uma vaga ideia do tamanho destes valores, o tão criticado Programa Social “Bolsa Família” pela classe média corresponde a menos de dez por cento do gasto com o Bolsa Empresário.
Trata-se de um valor obsceno, que representa mais do que o dobro do déficit primário do governo federal, estimado em R$ 120 bilhões em 2016. Estranho nunca termos visto o Senhor Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústria do Estado de São Paulo combater este descalabro.
Os itens que compõem o Bolsa Empresário formam um enorme emaranhado que precisa ser revisto, de preferência junto com uma reforma fiscal e tributária que nunca foi realizada a contento neste país.
No programa aos empresários acumulam-se subsídios, desonerações e o pior, regimes tributários diferenciados para toda sorte (Ou azar) dos setores da economia (Portos, Indústrias químicas, Empresas de petróleo, Fabricantes de equipamentos de Energia eólica e até o Agronegócio).  
 O setor de agricultura quase não paga previdência e impostos porque a maioria dos produtores, até os que faturam bilhões, acabam sendo enquadrados como pessoas físicas, e não jurídicas.
Sem contar os repasses que são feitos ao Sistema “S” (SENAI, SESC, SESI, SENAR, SEST e SESCOOP), cujas prestações de contas carecem de transparência. Bancam cursos educacionais, como o proposto, porém, misturam-se ao orçamento de inúmeras entidades empresariais.
Neste emaranhado de absurdos até o FGTS, cuja origem advém dos recursos dos trabalhadores teve aplicação de quase R$ 23 bilhões em Projetos Privados. Segundo informações da própria Caixa, os recursos foram corrigidos pela Taxa Referencial (0,2% + 6% ao ano). Um valor generoso quando comparado às condições de captação de recursos no Brasil. Destes recursos, R$ 2,5 bilhões foram destinados a Empresa de Sondas Sete Brasil, envolvida na Operação lava Jato e atualmente em recuperação judicial.
Já passou da hora do governo brasileiro acabar com a farra do boi gordo. Segundo o Instituto de Pesquisas de Economia da Fundação Getúlio Vargas, os benefícios tributários, financeiros e creditícios somam R$ 385 bilhões neste ano. Uma imoralidade e com certeza uma temeridade para os cofres da União.
Não acredito que um governo que não foi eleito pelo voto popular e que está atrelado ao latifúndio, aos sanguessugas da política brasileira possa promover alguma reforma que chegue próximo de resolver ou ao menos realizar uma avaliação efetiva e profunda dos custos e benefícios fiscais, como de todo gasto público.
A justificativa do governo para esta situação é a de promover o corte de impostos para fomentar o desenvolvimento em regiões menos favorecidas. O que não passa de uma grande mentira, quando analisamos que 52% do total dos gastos tributários em 2016 beneficiam o Sudeste, região mais próspera do país. Isso não vai mudar, até por que fica muito mais fácil para a classe política e a classe empresarial criticar os benefícios concedidos aos mais necessitados do que realizar os cortes tão necessários na estrutura atual.

1 de maio de 2016

Uma ciclovia chamada Brasil!


A tragédia da ciclovia, uma obra de R$ 45 milhões que havia sido classificada como legado olímpico e cartão-­postal dos Jogos, é um retrato 3x4 da esculhambação do país. Ali, naqueles metros que desabaram três meses após a inauguração, em 17 de janeiro, estão reunidos muitos pecados capitais. Não foi só crime de homicídio, com a morte de duas pessoas inocentes, diante de uma das vistas mais belas do Brasil, na Avenida Niemeyer.
Pedalamos num mar de crimes de responsabilidade, num deserto de homens públicos (e mulheres públicas) decentes. Não sabem o que é decoro, recato, pudor – ou compromisso. Na queda da Ciclovia Tim Maia, a ressaca é a única inocente. Análises de primeira hora apontam negligência no projeto. Possível corrupção e superfaturamento. Imperícia. Falta de estudos sobre o impacto das ondas num costão. Falta de fixação da pista às vigas. Falta de uma das duas vigas que constavam no projeto da Geo-Rio! Falta de sistema de prevenção por não interditar a ciclovia em dia de ressaca. Falta de nomes assinando o projeto. Falta de fiscalização. Falta de parafusos!
Não é isso que vivemos em grande escala no país? Uma ressaca moral de imensa magnitude. Uma onda excepcional de corrupção que mina as contas públicas, os serviços públicos, o dia a dia da população, dos ativos e inativos, aposentados e pensionistas. O que se espera de uma gestão responsável? Que esteja apoiada em pilares, assim como a ciclovia.
Concordo com um artigo assinado em O Globo pelo consultor José Vidal: “Os pilares da governança corporativa são justiça e equidade, transparência, prestação de contas e respeito às normas reguladoras”. Foi pela falta de todos esses pilares, sem sustentação possível, que desabou o governo da presidente Dilma Rousseff, levando junto milhões de vidas em penúria.
A força do mar foi subestimada e por isso a ciclovia caiu? Sim. Mas foi isso e mais um pouco. A Contemat e a Concrejato, empresas do grupo Concremat que construíram a ciclovia agora amaldiçoada, pertencem à família do secretário municipal de Turismo do Rio de Janeiro, Antônio Figueira de Melo – um dos principais auxiliares do prefeito Eduardo Paes. Na gestão Paes, segundo o jornal Folha de S.Paulo, a empresa multiplicou por 18 o valor de contratos com a prefeitura do Rio. Melo, tesoureiro de Paes, diz ser “infundado e leviano” ligar seu nome aos negócios da Concremat, fundada por seu avô e presidida por seu tio.
Quem viu o desastre disse que a onda levantou a ciclovia como se fosse à tampa de uma caixa de isopor. Quando se vê o péssimo estado de uma série de obras realizadas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, pensamos o que falta mais para o Brasil deixar de ser megalomaníaco. Faltam parafusos na cabeça de nossos gestores. Sobram trincas, rachaduras, afundamento na Vila do Pan, ameaças de desabamento dos estádios – como o Engenhão, fechado para reforma. Tudo faz parte do mesmo quadro.
Cinco meses depois da maior tragédia com barragens no mundo, o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Minas Gerais, que destruiu o distrito de Bento Rodrigues, o que vimos na semana passada? A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ) decidiu revogar a lei ambiental que regulamentava, em tese, o licenciamento das obras públicas. A proposta do Senado é autorizar a obra a partir de um Estudo de Impacto Ambiental do empreendedor para garantir a “celeridade... em obras públicas sujeitas ao licenciamento ambiental”. Já foi apelidada de “Fábrica de Marianas”.
Faltam parafusos, faltam pilares. Como pode o governador mineiro Fernando Pimentel contratar como secretária de Estado do Trabalho e Desenvolvimento Social a mulher, Carolina Oliveira, investigada por corrupção pela Polícia Federal, dando a ela foro privilegiado? Como pode esse inacreditável ministro do Turismo Alessandro Teixeira, o marido da miss bumbum, contratar a tia da mulher como secretária na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, pagando R$ 19.488,60 de salário? Como pode a presidente Dilma Rousseff arrombar ainda mais o caixa da União para inviabilizar qualquer eventual sucessor?
Uma primeira medida para moralizar o país seria acabar com a reeleição de presidentes da República. Uma segunda medida seria acabar com o foro privilegiado. Uma terceira medida seria desmontar o cabide de cargos de confiança e o malfadado nepotismo. Uma quarta medida seria reduzir à metade a máquina do Estado. Uma quinta medida seria acabar com as aposentadorias integrais de representantes do povo.
Falta saneamento básico ao exercício da política. Sem pilares de sustentação, cai a ciclovia chamada Brasil. É preciso reconstruir sobre bases muito mais sólidas.

Ruth de Aquino é colunista da Revista Época - Publicado em 01/05/16.